quarta-feira, 23 de julho de 2014

Esquerda ou direita: coisa da revolução francesa / Estender as mãos: coisa de Deus

Recebi de um irmão uma pergunta franca e direta: cara, na real, como tu pode ser de esquerda? parou pra pensar em tudo ao redor dessa estrela vermelha?

Texto de apoio: A Direita de Deus - e sua possível esquerda - Paulo Brabo LEIA AQUI

Desde que me conheço por gente sou politicamente, socialmente e culturalmente de esquerda. 
Mas esquerda e direita existe? Sabemos que se fizermos uma reflexão podemos cair naquela de que na política, especialmente no Brasil tudo se misturou e hoje não há mais diferença nenhuma entre partidos políticos. De fato existem grandes falhas no sistema, mas também nesta linha de pensamento.
Muitos, já neste início de leitura podem parar porque "não interessa o partido, são todos iguais" ou "eu odeio política". Mas espere: quem sabe pode valer a pena.
Precisamos nos voltar para um conceito bem explicado no texto de Paulo Brabo, onde ele resgata a Revolução Francesa em que "sentavam-se à direita do plenário os par­la­men­ta­res que apoiavam a monarquia e suas tradições e instituições, incluindo o clero; à esquerda sentavam-se os que apoiavam a revolução". Desta forma entendemos que existem sim dois posicionamentos claros: manter o que está e como está ou desejar a mudança daquilo que é necessário.
Acho que aqui devo deixar bem claro que não estou nominando partido político nem pessoas, mas um pensamento que determina a existência de grupos que entendem a desigualdade social como uma vontade soberana de Deus, como algo natural e desconsideram desta forma que à revelia da vontade Deus há um furo na história que produziu dívidas sociais, étnicas e culturais que tem a autoria dos homens e não de Deus. O que nos cabe, cristãos e cristãs é sim, reparar os danos cumprindo o “amai-vos uns aos outros”.
Quando lembramos que Jesus foi enviado para materializar, ou, humanizar o amor de Deus sem deixar para traz seu espírito de justiça. No mesmo texto, ainda de Paulo Brabo, ele deixa bem explicada a consciência dos que são de direita só porque não “gostam” da esquerda:

“Você não deve se mara­vi­lhar se eu tenho tele­vi­so­res de setenta polegadas e você um salário de 700 reais. Não deve se mara­vi­lhar se em casa somos três pessoas e cinco carros e no seu quarto são cinco pessoas e três camas. Não deve se mara­vi­lhar se tenho um sítio em que caberia o seu bairro inteiro e você vai morrer sem ver quitada a casinha que não é sua.É a ordem natural das coisas, você não vê? Eu tenho pós nos Estados Unidos e você não concluiu o ensino mais fun­da­men­tal, eu tenho talento e você é um medíocre, eu ralei fazendo resi­dên­cia e você nem plano de saúde tem, eu sou o dono do Jaguar e você é o mano­brista que não quero que risque.” 
Portanto eu tenho a dizer... talvez eu fosse uma esquerdista de nada quando só via sob a ótima política e humana, mas na vida em Cristo minha certeza das lutas sociais, da divisão mais justa de terras, da distribuição mais igual de renda, da oportunidade do pedreiro virar engenheiro, dos direitos trabalhistas iguais para empregadas domésticas, das políticas públicas de acesso à habitação popular, programas para juventude, para mulheres, para negros, para indígenas, para homossexuais. Não se trata de heresias, mas se trata de amar, de acolher, de pregar a justiça e o amor de Jesus.
Se deixarmos perecer pessoas porque somos cristão e defendemos a naturalidade das coisas, o comodismo de dizer que se fulano não tem é porque não merece. Mais uma vez do texto de Paulo Brabo:
Não importa se na França ou na revista Veja: a direita, conservadora, encontra na lei natural o seu grande argumento para defender os privilégios que escolheu.Certos privilégios, explicam os da direita, são naturais – e insistem que é preciso ser pelo menos um pouco não-natural para recusar-se a entender isso.Não conta, aparentemente, o fato de que as distinções tradicionais entre pessoas e classes, que foram por séculos tomadas como naturais, tenham se revelado com o tempo muito artificiais e arbitrárias. A primazia de nobres sobre a gente comum, de brancos sobre negros, de homem sobre mulheres, de arianos sobre judeus – foram todas tidas como naturais (também no sentido de estabelecidas por Deus), e todas foram (e em alguns casos permanecem sendo) defendidas pela direita.
Pelas autoridades de esquerda e direita devemos orar incessantemente. Mas pelos irmão e irmãs que mais precisam do que  é material e espiritual devemos baixar os olhos para as pegadas de Jesus, estender nossas mãos e trabalhar nos propósitos de Deus.

A paz e o amor de Cristo esteja com vocês!

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