terça-feira, 11 de outubro de 2016
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
“Vó, me diz aí uma palavra, vou escrever um texto”
Quando eu era pequena, na minha
fria Palmas, no sudoeste do Paraná, passava bastante tempo na casa de minha avó
Jeanette. Fui filha única por quase onze anos e por isso inventei muita
brincadeira sozinha, histórias criadas, times imaginários para jogar bola e
lembro perfeitamente de uma das coisas que eu mais gostava de fazer. Sentava em
um pequeno banquinho com assento de couro, daqueles que tem até uns pelinhos do
animal de tão rústico, e usava um outro banco, um pouco maior, de madeira, como
mesa. Assim eu pedia para minha avó: “Vó, me fala uma palavra ou um tema”, e a
partir dali saía um texto, uma história, uma poesia. Mais tarde, lembro de ter
escrito um texto sobre o Parque da Gruta que ficava no centro da cidade e tinha
uma cachoeira poluída pelos moradores. Fiquei tão indignada que escrevi e minha
mão me levou até um jornal local e eles publicaram meu texto. Participei de
concursos de redação e poesia. Sempre conseguia premiação. Mais tarde ainda,
aos 16, preste a fazer vestibular fui até um jornal que estava bombando na
época. E ali tive meu primeiro emprego
no jornalismo, sedenta por escrever, por comunicar, por relatar. Eu queria
formar opiniões, e sim, queria mudar o mundo. Me graduei em jornalismo em 2007,
trabalhei em outros jornais locais, em rádio, em assessoria de imprensa e nunca
parei de querer mudar o mundo.
Eu não consegui mudar o
mundo, embora tenha me mudado de lugar, de valores, e claro, aprendido bastante
sobre fazer o certo e o errado. Escolhi o errado na maioria das vezes.
Mas na semana passada cresceu em
mim a esperança de quem sabe conseguir mudar pelo menos uma parte do mundo.
Quando eu soube que haveria na
comunidade missionária na qual eu vivo um evento em que a bíblia seria
traduzida e precisaria de pessoas habilitadas na língua portuguesa para revisar
eu logo me animei e já me escalei para fazer parte disso. Era a hora de eu
colocar minhas manguinhas de fora, fazer correções, debater vírgulas e
concordâncias...uau! Minha área...que bom poder estar envolvida com isso. No
primeiro dia da programação passamos por avaliações simples em português,
inglês, bíblia e informática. Mas eu sabia que estaria na revisão... isso era
lógico, por que não fosse isso, o que mais eu poderia fazer ali? Traduzir
textos da bíblia em inglês? Nem pensar... passaria vergonha.
Acontece que não sei como fui na
avaliação de português, mas sei que a de inglês fez com que os MEUS planos
mudassem e eu de repente, estivesse na mesa do nível 1 do MAST (Mobilização,
Assistência e suporte à Tradução). E o que faziam nesse nível? Tradução.
Meu coração acelerou e ninguém a
não ser Jesus sabia como eu estava por dentro. Fui destronada de minha zona de
conforto. Agora ao invés de corrigir, eu seria corrigida. E mais, corrigida não
só no português, mas no meu rasinho inglês escolar. Estava exposta, do jeito que Papai gosta,
pronta para ser provada no fogo, moldada como barro na olaria. A humildade
tantas vezes negligenciada agora estava ali, pronta para entrar em cena.
Então eu entendi que Deus já
conhece bem minhas habilidades e não precisa se impressionar com elas. Mas o
que o deixa feliz mesmo é me ver aceitar o nível HARD. Entendi também que agora
sou jornalista das boas novas, mensageira de uma nova e viva história, a única
que pode me dar a chance de ver o mundo mudar. Através da tradução do MAST,
povos de idiomas que tem como portal a Língua Portuguesa, mas que ainda não tem
bíblias em sua língua mãe, dialetos ou outra forma de comunicação, agora
poderão ter livre acesso a esse material para fazer as próprias traduções.
E não bastasse isso, agora Deus
chegou com um novo desafio para o mês de novembro: um tal de Uniskript. Um
sistema para criar alfabeto para povos ágrafos, mas para beneficiar pessoas que
tem dislexia, por exemplo, ou mesmo para ensinar alguém um novo idioma.
Comprovadamente esse sistema alfabetiza comunidades inteiras em apenas duas
semanas, mudando sua qualidade de vida, seu acesso, seu conhecimento, sua
comunicação. Comunicação! Que palavra linda!
“Vó, me diz aí uma palavra, vou
escrever um texto”.
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
domingo, 14 de agosto de 2016
Me solte e me escute!
A humanidade está cheia de
anseios. Vozes interiores gritam, pedem coisas, expressam necessidades.
Caminhamos todos os dias carregados de necessidades íntimas, cujo tempo em que
vivemos não é propício, pois individualmente cada um tem uma máscara e tudo bem,
vamos seguindo. Estranhos até mesmo aos mais íntimos, preferimos o isolamento
ao risco de expormos a nossa necessidade e privamos o outro também, de se doar,
de doar o que tem.
Durante uma semana que estive no
Rio de Janeiro vivi uma experiência fantástica nas ruas da comunidade
Terreirão, no bairro Recreio dos Bandeirantes. Criei coragem para participar de
uma intervenção maluca em que penduramos uma plaquinha no pescoço com pedidos
como: “me conte sua história”, “me mostre uma dança”, “me dê alguma coisa”, “me
molhe”, “me pinte”, “me elogie”. Entre essas, no primeiro dia eu escolhi estar
com uma corda me amarrando e a plaquinha escrita “me solte”.
Nesse dia, uma das coisas mais
marcantes foi quando uma moça parou o trânsito para descer do carro e “me
soltar”. Ela disse que jamais poderia me deixar ali na rua amarrada, presa.
Quando escolhi essa plaquinha a minha maior intenção era ter tempo com a pessoa
que iria me desamarrar, podendo falar a elas sobre liberdade.
No segundo dia, com a
oportunidade de vivenciar outra experiência, escolhi a plaquinha com a frase “me escute”. No caminho até o local da
intervenção eu fui tomada por um pavor absurdo, me questionando o porquê eu
escolhi isso e o que eu iria fazer, o que falar para quem topasse me escutar.
Chegando lá eu vi que precisaria tomar uma atitude pró-ativa, indo até as
pessoas. Comecei me apresentando e dizendo o por que estávamos ali e logo consegui
encontrar situações para falar da falta de diálogo entre as pessoas, sobre a
pressa e as preocupações do dia a dia, bem como incluir as pessoas como
participantes do meu desafio do dia, de ser ouvida.
Naquela noite eu ouvi de um homem
muito sábio algo que fez todo o sentido. Ele disse que cada um pegou a
plaquinha, não apenas pelo efeito que faria nas pessoas, mas porque cada pedido
refletia um desejo pessoal e íntimo. Claro! É assim que as coisas funcionam: de
dentro para fora. Primeiro acontece em mim e depois no outro.
Quando eu expressei o pedido de
ME SOLTE, embora hoje eu experimente uma liberdade inédita nos meus trinta anos
de vida, no momento em que me dei conta do que me levou a escolher o pedido eu
percebi o quanto há de mim que ainda precisa vivenciar o que é ser livre de
verdade. Talvez uma profunda timidez que em prendido minha criatividade e tem
enclausurado dons, até mesmo artísticos. Porque se habita em mim um desejo pela
arte, há algo que precisa ser solto. E há anos que eu tenho convivido com um
tipo de frustração nessa área. Do que estou me escondendo, afinal?
Já quando resolvi expressar a
vontade de ser ouvida descobri, não somente a falta de pessoas disponíveis e
dispostas a me ouvir, mas a grande necessidade e aprender virtude do silêncio,
a habilidade de calar, a sabedoria de falar. Ao pedir para ser ouvida eu me
deparei com a minha desordem interior, com uma multidão de pensamentos – e muitos
deles coerentes e importantes – mas que talvez não devam ser falados – ainda ou
nunca. Ao contrário das minhas frustrações que me escondem, comunicar é algo
que me expõe demais. Para quem quero aparecer? Por que quero mostrar?
E ao final, o homem sábio também
me disse: você não precisa convencer sobre quem quer ser, você já está se
tornando essa pessoa.
sábado, 25 de junho de 2016
No meio do caos e das trevas é que sabemos o que é a graça que basta
Quando digo a Deus que a graça Dele me basta tenho que ter cuidado com o tom. Se meu tom é de resignação, me colocando em uma posição de quem se contenta com a graça como se fosse pouca coisa, não estou falando a mesma coisa que Deus, quando ele me diz "a minha graça basta para você". Porque quando Deus diz isso Ele quer dizer que a graça é muita coisa para quem não merece nada, que a graça é tudo, que ela basta porque é suficiente, porque supre tudo.
Deus me mostrou isso em um período de intercessão aqui na base ontem (24/06), quando compartilhou comigo a sua dor com relação ao sofrimento das prostitutas e a noite quando fui participar da entrega do Sopão com a Comunidade Antioquia em uma favela de Curitiba, no tempo de culto, antes de sairmos para as ruas Deus novamente me lembrou disso: a graça, que muitas vezes tenho como "pouca coisa"ou o "o que me resta", é na verdade TUDO que as prostitutas, os moradores de rua ou das favelas, os viciados, ou o dono de uma mansão onde não há paz ou nossa classe média satisfeita com seu conforto não têm. E isso não significa que sejam pessoas ruins, ou que não acreditam em Deus ou mesmo que não conheçam a Palavra, mas significa que ainda não entenderam que o amor de Deus supera nossa miséria humana de egoísmo, soberba, preguiça, vícios, imoralidades e nos abraça quando entendemos que estamos errando. A graça é simples demais para se entendida, e é por isso que a sociedade agoniza em depressão, ansiedade. E a sociedade somos nós todos. Todos precisamos urgentemente dessa graça que nos basta.
Ontem, quando estava no carro, antes da primeira parada na rua Deus falou claramente para mim: "O que os seus olhos verão nessa noite é o que os meus olhos estão vendo diariamente, 24 horas por dia, no mundo inteiro: caos e trevas. E como um dia eu vi luz no caos e trevas que você vivia, Larissa, veja hoje a luz que há no meio desses lugares, porque eu sou Deus e há esperança".

Outra reflexão importante que tivemos juntos antes de sair para as ruas. Quem mora na rua sabe se virar, eles comem de alguma forma, não estão com fome. A sopa que é entregue a eles é apenas o pretexto para o amor, para o abraço, para a conversa como a que tive com uma moça de 28 anos, mãe de 3 filhos, separada, em conflito com a mãe, sem convívio com o pai e que trabalha o dia todo para a noite voltar pra casa, na favela. Ou a oração e o incentivo que pudemos fazer para uma mulher completamente dominada pelo vício, sob o efeito do crack e ouvir ela dizer: eu acredito que Deus é o único pai e eu não aguento mais cair todos os dias, não aguento mais essa vida, não tenho casa. Não resolvemos o problema de ninguém, mas entregamos amor, atenção. E isso só é possível porque Jesus Cristo age através de mim, porque sinceramente, numa sexta-feira, tarde da noite, no frio que está, sem Ele eu não estaria lá para abraçar ninguém. terça-feira, 21 de junho de 2016
Influência #meditação #leituradinâmica
Mudar o mundo nunca foi um sonho
que escondi das pessoas que conviveram e convivem comigo. Tentei vários
caminhos, sonhei com utopias socialistas, acreditei na humanidade e acabei em
uma confusão enorme onde eu já não me encontrava mais, me perdi dos meus sonhos,
optei claramente por fugas de todos os tipos e enfim, quando de por mim Jesus estava me juntando do chão com uma mão e com a outra segurando os cacos todos espalhados.
Agora, há dois anos lendo a
bíblia e literaturas baseadas nela eu não tenho dúvidas de que a única maneira
de colocar uma pecinha que seja no velho sonho de mudar o mundo é através dela.
A Palavra de Deus e o Cristianismo, como diz Landa Cope, autora do livro Modelo
Social do Antigo Testamento, são as únicas alternativas para uma explicação a
respeito do universo que vivemos, dos aspectos bons e dos ruins. Mas obviamente
isso se trata de fé, o que é absolutamente pessoal.
A Jocum, ONG da qual faço parte
como voluntária em tempo integral, na qual moro, tem como objetivo entender o
chamado de Deus para conhecê-lo e fazê-lo conhecido, não apenas em meios
considerados evangélicos, mas em áreas de influência da sociedade. Essa é uma
visão interessante, que está no livro Modelo Social do antigo Testamento, no
qual tenho buscado compreender melhor a Palavra de Deus para governo, economia,
ciência, igreja, família, educação, comunicação e artes e entretenimento.
É o tipo de livro que desperta
vários tipos de sentimentos, mas de forma resumida os dois extremos são:
entusiasmo e frustração.
Explico os dois.
O entusiasmo é resultado da
esperança que a Palavra de Deus produz. A bíblia trata de todas as áreas da
vida de um ser humano de forma individual e também em comunidade. As áreas que
citei acima, se vivenciadas com o que está escrito se aproximarão muito de um
tipo de vida ideal, de mais igualdade, de qualidade de vida. Portanto, em meio
ao caos, cristãos e até não cristãos reconhecem a sabedoria que há nos princípios
estabelecidos.
A frustração vem da grande
dificuldade que encontramos quando colocamos nossa natureza diante desses
princípios e descobrimos que ela é totalmente contrária a qualquer coisa que
esteja escrita na bíblia. Embora conheçamos a verdade é necessário empenhar
esforços, não pela salvação, que é a boa nova e o prato principal de todo o
evangelho, porque essa vem de Deus, pela fé, não pelo que fazemos. Mas quando
descobrimos que existe um jeito de fazer o certo, sabendo que nossa tendência é
o errado, entramos em uma luta que depende sim de nossa decisão e disposição.
Podemos estar salvos, porém, pelas escolhas erradas e falta de disposição, se
arrastar por uma vida inteira.
Diante do entusiasmo e da
frustração é inevitável perguntar: como fazer alguma coisa a respeito disso?
Conversava com alguns amigos
missionários aqui na Jocum e nosso debate era como podemos influenciar pessoas
e áreas da sociedade estando na missão, ou, mesmo se deixarmos a missão para
trabalhar em alguma das áreas? Tive uma aula sobre a pessoa de Jesus e o
preletor Salomão Cutrim, que é líder da
base que estou disse que tudo no Reino de Deus é intencional, que Jesus era
intencional em suas atitudes e palavras. Mas somado a isso, nós cristãos
acreditamos que o Espírito Santo é quem age através de nós. E uma das coisas
que chegamos a conclusão na conversa entre amigos, é que como cristãos, se
buscamos viver genuinamente o evangelho
tal qual ele é, naturalmente tudo o que fizermos - desde o bom dia que damos
todos os dias na padaria, no mercado, no banco, na rua, até uma ação de
evangelismo – vai influenciar pessoas, porque é intencional de nossa parte
querer fazer Jesus conhecido e há a ação do Espírito Santo. Portanto, o ponto
der partida para uma pequena ou grande influência é basicamente a minha relação
com Deus e sua Palavra.
Em nossa conversa falamos sobre o
que esperamos quando pensamos em “ganhar alguém para Jesus”, expressão que
significa que a pessoa ouviu sobre o evangelho e aceitou o que ouviu. Muitos
entendem que quando alguém aceita Jesus, confessa o nome Dele como Deus e
salvador a tarefa foi cumprida, outros entendem que é necessário uma caminhada
longa junto com a pessoa até que ela aceite Jesus e mais uma longa caminhada
depois, quando essa pessoa aceitou e começa a se deparar com uma série de
transformações radicais. É o que Jesus chama de discipulado. Nisso, gostaria de
compartilhar uma meditação em Atos 9, em que Deus revelou para mim o entendimento do
chamado cristão para ser Ananias e Barnabé.
Quando o judeu perseguidor de
cristãos Saulo, que depois seria Paulo, teve uma experiência com Jesus Cristo, a
bíblia contas que a luz que ele enxergou foi tão forte que o cegou. Ele foi
levado cego para uma casa e muito assustado, porém convicto de que Jesus havia
falado com ele. Enquanto isso Ananias, um discípulo recebeu de Deus uma visão
que o mandava ir até Saulo e orar para que ele voltasse a enxergar. Ananias sabia
muito bem que era Saulo e demonstrou desconfiança quanto a cumprir essa tarefa
mas foi assegurado por Deus que isso daria certo e que Saulo não mais era a
mesma pessoa. Ananias ouviu Deus, superou seu medo de enfrentar o temido Saulo,
confiou, obedeceu e foi. Ao orar por Saulo a cegueira foi curada. Eu, que hoje
luto todos os dias para ser uma seguidora de Jesus devo me posicionar como Ananias,
sendo quem após a experiência de alguém com Jesus abra os olhos dessa pessoa,
seja eu quem, por já conhecer quem é Deus possibilite que a pessoa possa ver a
verdade. Muitas vezes pode ser alguém considerado impossível de mudar de vida,
ou mesmo a transformação de um lugar de trabalho, de estudo que pareça uma
utopia. Se Deus garantir que quer que eu faça isso, eu preciso ir. Depois
quando os discípulos desacreditavam que Paulo pudesse mesmo ter mudado e agora estivesse
do lado dos cristãos, foi um homem chamado Barnabé quem “tomou Paulo consigo” e
inseriu Paulo entre os demais, garantindo a experiência que Paulo teve,
acreditando nele. Imagino Barnabé encorajando Paulo, e conversando com os
discípulos sobre a verdadeira conversão. Tudo isso porque Barnabé entendia pelo
Espírito essa garantia sobre Paulo. Eu preciso também ser esse ponto de apoio
de pessoas desacreditadas, pessoas cujo nível de confiança perante os demais
seja zero.
Cada cristão um dia foi Saulo que
se tornou Paulo e por isso tem um compromisso pessoal com Jesus de ser o que os
Ananias e Barnabés foram em sua vida. Eu precisei se alguém que me conduzisse e
precisei mais ainda de alguém que mesmo diante do meu passado e dos meus erros
ainda confiasse e continue confiando em mim, porque Deus diz a essas pessoas
que Ele tem um objetivo comigo.
Eu posso influenciar sem muito
conhecimento, sem dinheiro, sem escolaridade, sem um nome conhecido, sem um
púlpito. Mas não posso influenciar sem a intimidade com Deus que gera o amor
que torna possível fazer a única coisa que importa fazer: tornar a Verdade
conhecida.
quinta-feira, 9 de junho de 2016
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